Revista PS:SP
Editora AteliêCompre
A revista PS:SP reúne uma boa parcela da recentíssima juventude literária paulista, mas não é, nem traz, um manifesto. Também não pretende ter continuidade (somente este número será editado) nem mesmo ser uma antologia, pois todos os textos são inéditos e escritos especialmente para a revista. Não é, portanto, uma junção de textos, mas de escritores.
Jovens, não por conta da idade que é bem variada, mas sobretudo por serem autores que, em sua maioria, começaram a publicar na última década do século passado.
André Sant´Anna, Ronaldo Bressane, Cláudio Galperin, Bruno Zeni, Nelson de Oliveira, Marcelino Freire, Marcelo Mirisola, Marçal Aquino, Luis Ruffato, Joca Reiners Terron, Fernando Bonassi, Ivana Arruda Leite. Fazem parte do grupo que Ítalo Moriconi chamou de Máfia Paulista (que quase se tornou o nome da revista).
Nelson de Oliveira também apelidou carinhosamente esta turma de Geração 90, o que serviu de título para a antologia organizada por ele e publicada pela editora Boitempo ("Geração 90 - Manuscritos do Computador"). Acima de tudo, são pessoas que, além de exercerem esta complicada profissão de escritores, se conhecem, conversam, trocam idéias, bebem cerveja ou tomam café juntos. Enfim, Ítalo Moriconi estava absolutamente certo.
PS:SP é, na verdade, uma comemoração, uma festa, um encontro celebrado na noite de 24 de março de 2003 no Espaço Unibanco de Cinema, centro de São Paulo, ao lado da Avenida Paulista e das boates e prostíbulos da região. Brincadeira séria de crianças-adultas que também são escritoras.
Não há uma apresentação formal nem exposição de idéias de um grupo, mas um despretensioso diálogo introdutório entre os dois organizadores da revista, Marcelino Freire e Nelson de Oliveira, explicando como e por que a revista nasceu, recheado de imagens das capas dos livros destes escritores, inclusive dos gaúchos da editora Livros do Mal, "excluídos" desta máfia.
Há o belíssimo e impressionante trabalho gráfico assinado por Teresa Yamashita e pelo Nelson (ele também é designer gráfico; afinal, é preciso sobreviver de alguma forma). Tem as fotos de J. R. Duran cuja eficiência e talento estão soberbamente demonstrados aqui: ele conseguiu deixar Marcelo Mirisola bonito! (exagero meu, nem mesmo Duran é capaz disso; não seria fotografia, e sim bruxaria).
A brincadeira de roda continua: cada autor é apresentado por um dos colegas. Assim, Joca Terron apresenta André Sant´Anna que apresenta Bruno Zeni que apresenta Ronaldo Bressane e assim por diante. E no final ainda há um divertídissimo testemunho de cada um sobre como foi a sua experiência pessoal como modelo de J. R. Duran.
Ivana de Arruda Leite escreveu:
"Mãe, você está sentada?" "Estou." "Vou ser fotografada pelo Duran" "O J. R.?" "Ele mesmo." Minha mãe achou que era gozação. Como uma mulher baixinha, barriguda, de 51 anos, podia ser fotografada pelo Duran? Um dos dois tinha enlouquecido. "Pelada?" "Não, mãe. Só o rosto." Mesmo assim. O que ele faria com minha boca torta, meu nariz imenso, meus sete graus de miopia, meu cabelo espantoso? "É pruma revista de literatura." "Ah, bom...", como se dissesse: "Pra escritora sua cara serve." Pois então, além de todo este barulho, luzes e promoção, é obvio observar que o registro literário (que é o que mais conta, afinal) é naturalmente diverso e variado. Estilos diferenciados; experiências literárias, existenciais, sociais e acadêmicas personalizadas; propósitos culturais, ambições e projetos de vidas específicos. PS:SP é um painel, um reflexo, e, ao mesmo tempo, um dínamo desta mais que recente prosa brasileira.
Apesar de todas estas diferenças e diversidades, "marca" absoluta dessa geração, no entanto, há linhas convergentes. Há traços que se cruzam. Assim como avenidas, ruas, transversais, paralelas, travessas.
Festejemos, portanto. A literatura brasileira está mais viva e agitada do que muita gente pensa.