O Brasil Best-Seller de Jorge Amado - Literatura e Identidade Nacional
Ilana Seltzer Goldstein
Senac
328 páginas
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Entre os anos de 1920 e 1940 o Brasil passou por um intenso processo de construção de identidades - regionais e nacionais. Talvez as identidades regionais recuem no tempo, visto que sua formação atende a processos e sentimentos bastante diferenciados em relação à nação. Não é acidental, ou fortuito, que justamente nesta quadra temporal encontremos elementos que simbolizam este processo, tais como Heitor Vila-Lobos, Mário de Andrade - e com ele todos os modernistas paulistas -, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr, Jorge Amado e a própria constelação de personagens que aglomerou-se em torno do governo Getúlio Vargas e, sobretudo, do ministério da Saúde e Educação capitaneado por Gustavo Capanema. Ora, sem querer ir demasiado longe, é de se reconhecer que os anos de 1930 são cruciais na definição daquilo que hoje acreditamos ser nossa "identidade nacional". Contudo os problemas são muito menos simples do que podem parecer.
Ilana Seltzer Goldstein - em sua dissertação de mestrado que agora vira livro - optou por fazer este itinerário a partir da obra de Jorge Amado, romancista que se encontra dentro do movimento dos anos de 1930, proposta mais do que interessante. Ilana Goldstein, como antropóloga que é, traz uma contribuição interessante, que é a de olhar o processo de formação da identidade nacional a partir de uma ótica que não é a do Estado onipotente. Ela consegue visualizar que tais processos são calcados nas relações entre protagonistas sociais e que é um equívoco da história e dos historiadores considerar que alguns Estados, mesmo um Estado totalitário, possa tudo. Mas, sobre a interpretação de Ilana Goldstein, então começam os problemas.
Se para alguns historiadores o povo desaparece como agente interventor para Ilana é o Estado que some. Ele simplesmente não existe na construção da identidade nacional, até porque, em sua visão, esta é fruto da dupla Gilberto Freyre e Jorge Amado.
Seja reconhecido o papel freyriano na construção de um imaginário nacional, bem como o papel de Amado, contudo ir para além disso é incorrer em equívocos que avolumam-se. Em primeiro lugar, Freyre nunca compartilhou da defesa de que a sociedade brasileira deveria ser ou era uma reprodução da sociedade pernambucana; pernambucana, enfatize-se, pois Freyre nunca admitiu reconhecer qualquer espécie de igualdade entre a sociedade pernambucana e a sociedade baiana. Prova cabal é a recusa que faz da culinária baiana em "Açúcar: uma sociologia do doce seguida de receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil". Para Freyre, a cultura baiana era demasiada africana e, em relação à pernambucana, desproporcional. Logo não haveria sentido em colocar Freyre e Amado dentro da mesma cumbuca. Além disso, as divergências políticas entre ambos, nos idos dos anos de 1930 e 1940, eram profundas, apesar de terem amainado com o tempo e com a própria transformação do Brasil e do painel mundial. No mais, o Nordeste, como unidade cultural, somente existe no olhar de quem não é pernambucano, baiano, cearense, paraibano...
O segundo equívoco é confundir a imagem brasileira no exterior e a imagem brasileira interna. Ilana Goldstein reconhece que foi sua estranheza diante da visão que os europeus tem do Brasil que a levou a pesquisar o problema da identidade nacional. Bom, a Europa - bem como os Estados Unidos - construiu uma visão do restante do mundo de forma bastante exótica e alimentada por esse suposto exotismo. Além do mais, a relação entre grupos culturalmente tão diversos - e isto é uma contribuição da antropologia - tende à simplificação, ao encolhimento dos marcos culturais e à diminuição das divergências internas. É isto que também fazemos com estas sociedades, olhamos e somos olhados. Ou estamos dispostos a reconhecer a diversidade cultural francesa?
Nunca é demais lembrar que tais relações também são calcadas em relações de força, que dialogam com a reafirmação do controle político e econômico mundial, e quem ainda tiver dúvidas sobre isso que consulte Edward Said. Trocando em miúdos, isto significa que a imagem que Ilana Gldstein viu do Brasil no exterior não é exatamente uma representação da identidade e nem sequer sintoniza com o imaginário interno da nação.
O terceiro problema reside no fato de admitir que toques tão regionalistas sejam capazes de representar um quadro cultural tão diverso. Existe sim um imaginário nacional e a construção de uma identidade nacional, mas o problema reside muito mais no fundo. Não consigo imaginar um gaúcho ou um paraense, paulista ou mesmo um carioca, goiano, identificando-se com a sociedade retratada por Amado. Diria mais, não consigo ver nem mesmo um baiano reconhecendo-se na obra de Amado - que, diga-se de passagem é absolutamente caricata, estereotipada e reforça os preconceitos não somente raciais como culturais e sociais que pesam sobre a sociedade baiana. Na obra de Jorge Amado o trabalho aparece como um problema tangencial, o conflito de classes desaparece com o tempo, o racismo não existe. Enfim, recupera neste momento traços freyrianos.
O quarto problema reside em atribuir demasiada força ao papel de um escritor na construção de uma identidade. Mesmo que fosse Freyre tal afirmação seria desproporcional, exagerada. O diálogo histórico e social é muito mais complexo do que isso, e ignorar o tempo é pecado mortal. Nos mais de 70 anos que nos separam mudanças embalaram o Brasil, e ele dentro de um painel cada vez mais dialogado. Crer que as mudanças da obra amadiana tiveram a ver somente com suas mudanças biográficas é absurdo. E junto com isso, é claro, a mudança da identidade nacional e a forma através da qual é e foi trabalhada.
Paralelamente, Ilana Goldstein ignora o tempo - equívoco de muitos antropólogos (mas não de todos é claro). O Brasil passa e Amado desfila em sua história, nada ocorre em um período tão amplo quanto o da carreira do escritor. Isto sem mencionar as reduções e sínteses baseadas em interpretações bastante parciais da história brasileira. O caso dos anos de 1930 é patente, não é possível falar de uma antropologia no tempo se não se estuda que discute o tempo, e na obra de Ilana Goldstein não existe uma discussão sobre o caráter dos anos trinta. Ora, mas é o período de surgimento de Amado como escritor! A autora contenta-se em reproduzir as informações mais triviais e do senso comum sobre os 30 e isto muda toda a interpretação do problema.
Resta ainda mais um problema, e prometo que será o último que discutirei embora não seja o último a existir. Jorge Amado é fruto de seu tempo ou o tempo é fruto de Amado? Não me arriscaria a escolher entre ambos. Preferiria buscar entender que ambos estão juntos mas, de qualquer forma, o tempo tem mais peso do que o homem. E Amado enquadra-se dentro de um movimento mais amplo, e definitivamente se por um lado participa da construção da identidade nacional também, penso que com bastante razão, não é o único ou maior responsável pela construção da mesma.