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Não Fui Eu!

Claudinei Vieira

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Não Fui Eu!
Quino

Editora Martins Fontes
128 páginas
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Joaquín Salvador Lavado é bem mais do que o Quino da Mafalda. Dono de uma vasta e clássica produção, ele já escrevia e desenhava bem antes de criar a admirável menina.

Enquanto a fama de Mafalda corria mundo e firmava o nome do seu criador como um dos maiores chargistas da humanidade, ele nunca deixou de trabalhar em outras frentes, criando novos picos de qualidade.

Chegou um momento em que Quino se sentiu sufocado pela predominância da turminha da Mafalda e, em uma decisão que abalou o mundo, decidiu nunca mais escrever nenhuma historinha com ela.

Diferente de outro grande escritor que se sentiu tragado pela sua criação (Arthur Conan Doyle chegou a "matar" o seu detetive, o famosíssimo Sherlock Holmes, pois ninguém aceitava que ele escrevesse qualquer outra coisa; diante da pressão, voltou atrás e foi praticamente obrigado a "ressuscitar" seu personagem e reiniciar novas aventuras), Quino manteve sua posição e nunca mais a menina teve outra chance de aparecer.

Nisso, já se vão uns trinta anos. Se, por um lado, ficamos tristes e só podemos lamentar a ausência de novas aparições da menina, por outro, podemos admirar e nos deliciar com todo esse mundo alternativo que Quino nos mostra.

Não à toa, um dos seus álbuns possui o nome de "Mundo Quino". Mesmo porque (e, nisso também, bem diferente de Conan Doyle) essa produção mantém um nível de qualidade e profundidade espantosos que nada ficam a dever ao seu personagem mais famoso.

Os álbuns que agora estão sendo reeditados pela Martins Fontes estavam há muito tempo fora de catálogo e alguns são realmente inéditos, pois só circularam pelo Brasil por edições portuguesas.

Isso significa que há pelo menos uma ou duas gerações que nem sequer sabem da existência de um Quino "não-mafaldense". De certa forma, são uns felizardos, já que estão sendo apresentados, com toda a surpresa do primeiro contato, ao mestre.

O humor de Quino não é aquele de despreocupação e desprendimento, do qual possamos dar risada e esquecê-lo logo depois. Muito pelo contrário. Ele deita um olhar crítico e meio sem esperança sobre a humanidade. Sua melancolia é poderosa. Pode-se rir, sim, mas é sempre meio amargo, sempre desconfiado.

Percebe-se o quanto tudo aquilo é real e verdadeiro. A maestria de Quino vem de sua habilidade de lançar olhares sobre o insuspeito lugar comum e cotidiano, banal até, e conseguir levantar ângulos escondidos. E podemos quebrar a cabeça e pensar: como não havíamos visto aquilo antes.

Ou então reconhecemos (e nos reconhecemos) aquelas situações, somos aqueles personagens, passamos por aqueles mesmíssimos eventos, ouvimos as mesmas palavras. O que, no caso de Quino, de forma alguma significa refrigério ou alívio.

Sem ser panfletário, sem carregar bandeiras nem entrar para um partido, Quino pode ser considerado como político, na significação mais profunda do termo, talvez em sua verdadeira significação. Cada charge, cada tira, cada página carrega uma mensagem, ou melhor, explode um sentido. O riso pode vir fácil, os desenhos podem ser simples e diretos ("bonitinhos"), mas, quase sem percebermos, o impacto permanece em nossa mente.

Tendo incorporado algumas atualizações, como a presença do celular ou o aparecimento da Aids, os temas de Quino são, ontem como hoje, eternos: o amor, o sexo, a corrupção, morte, vidas vazias, exploração econômica, religião, dietas, velhice e juventude, educação, casamento, adultério e por aí vai.

São só três álbuns. "Potentes, Prepotentes e Impotentes", "Não fui eu!" e "Que gente má!" É tão pouco! Espero que outros venham na esteira. E bem que a Martins Fontes poderia editar alguma coisa parecida com aquele maravilhoso "Toda a Mafalda". Quem sabe um "Todo Quino"?!

Se você não consegue esquecer Mafalda, clique aqui.


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