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BaléRalé

Claudinei Vieira

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BaléRalé
Marcelino Freire

Ateliê Editorial
144 páginas
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Marcelino Freire desconcerta. Desconstrói, decompõe. E remonta, a seu bel-prazer e nosso fascínio. Brincante, voa por cima dos sentidos e das palavras, quebra nossas expectativas, expõe fissuras insuspeitadas.

Não precisa de muito, o danado. Seus textos são curtos, cortantes, perfurantes. Ele não segura um facão literário desbragado; está mais para um canivete, humilde e singelo, tremendamente afiado que provoca um bruto estrago.

O verdadeiro dançarino deste balé ralé não é o menino que quer fugir da realidade da roça e seguir sua vocação ("O que ele tá pensando, o que comadre tá pensando? É preciso pisar o chão, cortar a sola do dedo. Mas, não. Fica ali, voando. O menino fica voando" ... "Acho que essa desgraça não tem salvação", em "Balé").

Ou o Zé que, quando dança, pára a terra, em "Leão das Cordilheiras". Ou até mesmo o dançarino de "A Sagração da Primavera" (cujo parágrafo "Meu amor cega como purpurina. Purpurina cega. Purpurina pura" é praticamente uma declaração de credo literário).

O verdadeiro bailarino é Marcelino, que saltita, pula e pratica piruetas por cima de desgraças, risos, horror e beleza. Somos obrigados a fazer o mesmo, praticamos saltos mortais sem perceber. Ou melhor, só percebemos quando já é tarde, já estamos no meio da roda, no que a principio parecia ser uma besta brincadeira infantil.

Atenção: ele é ardiloso, manhoso. Nos engana com falsas simplicidades, parágrafos curtos, texto mínimo, palavras menores. Ele nos arrasta (ou nos empurra) com uma facilidade impressionante, como quer. Chega a ser humilhante.

Quando acabamos de ler o conto (história, narrativa, historieta?), um universo inteiro foi descortinado. Quando passamos para o próximo... continua ali a mesma arquitetura. E mesmo assim somos sempre pegos de surpresa.

Não há como escapar do profundo terror em que nos envolvem os balbucios de uma criancinha que sofre o "amor" de seu pai. Ou o inesperado senso de dignidade da mulher que dá todos os seus filhos. Ou na impotência da mãe perante a filha estuprada.

E, desde já, afirmo e propago: "Homo Erectus", o conto que abre este volume, merece figurar em qualquer antologia. Precisa ser lido! Hilariante, humano e profundo. Em duas páginas!

Marcelino Freire continua nos desconcertando. Como em "Angu de Sangue". Como em "EraOdito" ou na coleção "5 Minutinhos". Também na revista PS:SP. Ou nesta coleção recém-lançada, da qual "BaléRalé" faz parte, "LêProsa". Para nossa sorte. E da literatura brasileira.


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