O Dia do Cachorro Azul
Serge Brussolo
Companhia das Letras
224 páginas
R$ 26,00
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No mundo da literatura infanto-juvenil européia, não há somente Harry Potter! A Companhia das Letras publicou um verdadeiro peso-pesado francês: "O Dia do Cachorro Azul", o primeiro livro de uma série sobre a menina Peggy Sue em sua luta contra os Invisíveis.
Não encontrei nenhuma referência de publicação de obras de Brussolo no Brasil. Até onde sei, o público brasileiro está sendo apresentado pela primeira vez a duas personalidades que estão fazendo um sucesso louco em terras francesas: Peggy e Brussolo.
Serge Brussolo é uma figura extraordinária. Possuidor de uma imaginação espantosa e de um ritmo de trabalho alucinante, é autor de pelo menos cento e cinqüenta romances dos mais variados gêneros, notadamente de ficção cientifica, fantasia e thrillers de suspense.
São dirigidos, em geral, para um público adulto, mas isso não impede que contenham um grau de originalidade de enredos e de soluções raras vezes visto. Suas histórias são fortes, esquisitas, a maior parte com visões mórbidas e pessimistas do futuro.
"Os Que Mordem O Céu", numa tradução livre do título, por exemplo, narra a história de um planeta que oferece serviços especializados em pompas fúnebres. São muito solicitados, pois em cada planeta há uma cerimônia fúnebre diferente.
"Os Lutadores Imóveis" é uma estranha alegoria/fábula ecológica às avessas, nem um pouco politicamente correta, onde a Sociedade Protetora dos Objetos impõe uma pena severa: o infrator tem o osso partido com fratura exposta no formato do objeto que quebrou.
Em "A Cicatriz do Caos", só sobraram dois seres humanos em uma Los Angeles do terceiro milênio devastada por um vento cósmico.
Sucesso editorial desde a década de 80, ganhador de vários prêmios literários importantes, seus livros são vendidos como água, embora só nos últimos tempos os críticos estejam realmente levando sua obra mais a sério. Criador de várias sagas, gosta de desenvolver seus personagens e enredos em livros em série, trilogias ou tetralogias, inclusive utilizando vários pseudônimos diferentes e escrachados.
Nos últimos anos, dizendo-se cansado de escrever ficção científica e fantasia, voltou-se para outros gêneros, como o romance histórico e o infanto-juvenil. Serge Brussolo está gostando muito de escrever para crianças e adolescentes, pois diz que é uma espécie de literatura extremamente difícil e ele gosta de desafios.
Escrever para um público infanto-juvenil não implica, no entanto, que suas tramas sejam menos densas nem o clima menos mórbido.
Peggy Sue é uma menina atormentada porque é a única pessoa na face da Terra que consegue enxergar os Invisíveis. Eles não gostam nada disso. São seres nebulosos, cruéis e malignos, controlam a natureza e a matéria como quiserem e cujo objetivo é se divertir ás custas dos humanos. Suas brincadeiras não tem nada de inocente.
Deixemos de lado, portanto, qualquer semelhança com algum Gasparzinho camarada. Aliás, eles odeiam ser chamados de fantasmas, odeiam os seres humanos e odeiam ficar entediados. Por isso, vivem inventando brincadeirinhas como desviar carros para precipícios, enforcar pessoas em lugares inacessíveis só para ver a cara de espanto dos humanos, provocar ataques do coração ...
Sua única contrariedade é não poder matar Peggy Sue. Ela está protegida por um tipo de feitiço enviado por uma espécie de fada-madrinha extraterrestre, que lhe explica que ela foi escolhida, por algum motivo não esclarecido, para ser a tábua de salvação da humanidade.
Portanto, o que eles podem fazer para extravasar sua frustração é ficar armando situações que a fazem parecer maluca, esquisita e problemática para os demais: empurram-na de um lado para o outro, jogam seus livros, tapam sua boca para não responder às interrogações dos professores. Até o momento em que a situação fica insuportável e sua família é obrigada a mudar de cidade. E de novo, e de novo.
Assim, Peggy Sue cresce solitária, sem amigos, incompreendida e revoltada por carregar uma missão que não compreende e que a impede de ser uma pessoa comum e normal como qualquer adolescente. E tudo isso é explicado nos dois primeiros capítulos!
Em "O Dia do Cachorro Azul", Peggy e sua família chegam a uma cidadezinha chamada Point Bluff, onde os Invisíveis, cada vez mais exasperados com a menina, decidem montar uma grande demonstração de seus poderes.
Um certo dia, a cidade amanhece com um sol azulado e quem fica exposto aos seus raios desenvolve uma inteligência fora do comum. As pessoas se entusiasmam com aquela genialidade instantânea; quanto mais expostos, mais inteligentes ficam. Somente Peggy Sue poderia avisá-los de que aquilo era uma armadilha, mas quem acreditaria?
As conseqüências são devastadoras: a inteligência permanece somente durante o dia; à noite o cérebro vai sendo destruído, as disputas e rivalidades entre os gênios desorganizam toda a cidade; as mais mesquinhas aspirações internas vêm à tona.
Ao mesmo tempo, aqueles que não querem participar dessa loucura não conseguem sair da cidade: "alguma coisa" os impede de passar dos limites urbanos e os que insistem acabam morrendo ou desaparecem. Até que, para imenso divertimento dos Invisíveis, os animais também adquirem inteligência com fortes poderes telepáticos e desejam se vingar dos seres humanos.
Brussolo consegue criar um clima de tensão e suspense surpreendente. Aqui não há cenas de sangue escorrendo ou terror explicito. Em geral, a expectativa do que vai acontecer é mais forte do que o próprio ocorrido. A morbidez escorre por todos os lados. Mais do que a história, porém, o que vale é a caracterização dos personagens, a descrição das cenas.
Brussolo destila um enorme pessimismo pela raça humana. Os humanos são falsos, orgulhosos, vaidosos, prepotentes, ridículos. Se os Invisíveis são os verdadeiros vilões, os humanos também não ficam atrás em sua implicância com a menina, em sua cegueira para as verdades que ela aponta ou no seu orgulho ferido, quando percebem que ela está, no final das contas, certa.
Este não é um livro fácil, como pode parecer à primeira vista. Não existe aquele maniqueísmo simplista como nos Harry Potters da vida, pois, apesar do absurdo das situações, o que conta é o modo como pessoas absolutamente normais, com seus defeitos e qualidades, podem reagir em frente ao inusitado, ao inesperado, ao incomum. Por causa dessa complexidade, este é um livro fascinante.
Espero que seja um sinal para a publicação, não só de toda a saga de Peggy Sue, como também da obra de Serge Brussolo.