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Literatura e Resistência

Rodrigo da Silva

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Literatura e Resistência
Alfredo Bosi

Companhia das Letras
297 páginas
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Em duas ocasiões tive o privilégio de encontrar o Professor Alfredo Bosi. Em ambas, o que mais me impressionou foi a singular capacidade de Bosi em ser absolutamente transparente, límpido em seu pensamento e franco em suas respostas.

A inteligência de Bosi cativa, entre outros tantos motivos, pelo fato de ser despida de pompa - tão peculiar em nossos "notáveis" - e direta, apesar de profundamente reflexiva e bem fundamentada. Essas são algumas das características que encontramos em "Literatura e Resistência", seu trabalho mais recente.

Em grande medida Alfredo Bosi repete a fórmula que empregou em "Dialética da Colonização" (obra de 1992, também editada pela Companhia das Letras), trabalho fundamental para os estudos da cultura brasileira. Uma série de ensaios, não tão breves, articulados e tratando de um tema comum. Desta vez, o eixo das reflexões são as dimensões da resistência, expressas nas formas e nos tempos mais variados.

Dos estudos de literatura brasileira de Antonio Candido e Otto Maria Carpeaux, passando por Sílvio Romero, Mário de Andrade e Tristão de Athayde; do Padre Antônio Vieira enfrentando seus inquisidores até Euclides da Cunha denunciando o massacre daqueles que havia julgado como "esquizofrênicos", Alfredo Bosi demonstra que não existe uma única forma de resistência, ainda mais quando se trata de arte, campo tão melindroso para a análise.

Um dos ensaios - ou capítulos - do livro pude acompanhar com alguns meses de antecedência ao lançamento da obra, quando o professor abriu sua arca e falou de suas atividades de alfabetização junto aos jovens da JOC (Juventude Operária Católica) em Osasco, nos idos dos anos de 1970.

Ele reconheceu o quanto aprendera neste trabalho e o quanto revira seu conceito de "excluídos", quando José de Souza Martins atentou-lhe para o fato de a "exclusão" não ser uma idéia pertinente, uma vez que aqueles que chamamos de "excluídos" são, em verdade, explorados. Explorados totalmente inseridos no sistema, plenamente "incluídos" em sua função.

Este é mais um exemplo do trabalho que Bosi desenvolve, tentando fugir à análise fácil, demagógica, populista. E, convenhamos, falar sobre literatura e resistência seria um campo muito fértil para abordagens superficiais, que privilegiassem autores reconhecidamente perseguidos, encarcerados ou durante muito tempo desprezados.

Ao contrário, Bosi optou por buscar na raiz a idéia da resistência, demonstrando que ela pode ser não somente política, mas estética - ainda que em diversas ocasiões uma resida na outra - e ainda mais longe, como no caso de Vieira, abrindo o leque e indicando como as idéias milenaristas do jesuíta, e sua defesa frente ao Santo Ofício, constituíram um foco de resistência, dobrando seus inquisidores com a força da retórica e o profundo conhecimento das escrituras.

Insere ainda no trabalho um ensaio sobre Luigi Pirandello e outro sobre Albert Camus na festa de Bom Jesus, utilizando um recurso refinado no qual busca a compreensão das manifestações culturais por meio do choque criado pelo contato de mundos tão diversos.

Aproveita o diálogo com os autores estrangeiros para demonstrar como posicionamento político e resistência - ou ideologia e produção artística - não pertencem ao mundo das relações mecânicas: Ezra Poud simpatizava com o fascismo, Borges foi condescendente com a ditadura argentina, etc. Nem por isso são menos revolucionários, nem por isso são menos "resistentes", mas também não estão acima da crítica às suas posições político/ideológicas. É justamente nesta readequação da crítica literária que reside a grande virtude de Alfredo Bosi: em conseguir analisar o mesmo objeto sob diversos aspectos, jamais como monolito.

Em outra das constantes de sua obra, Bosi apresenta suas referências principais, suas filiações. Insere-as e faz questão de defendê-las, sucintamente, sem hostilidade, quase como que puxa pela memória algo que em certo momento lhe vem à mente. Assim, defende sua vertente, a de um cristianismo libertador, com grandes doses de Gramsci, de pensamento aberto, deitado sobre a cultura. Retoma uma tradição, infelizmente cada vez menos presente, de conciliar, sem fundamentalismo, marxismo e progressismo católico (frente que alimentou a luta pela liberdade no Brasil nos idos dos anos 60 e 70 e que, para Bosi, rendeu críticas bastante infelizes).

Em resumo, "Literatura e Resistência" merece novamente o comentário de Roberto Schwarz, feito por ocasião do lançamento de "Dialética da Colonização": "Divergências à parte, é uma alegria saber que este livro vai causar uma agitação considerável nas salas de aula do país. As questões refletem uma interpenetração de crítica literária, pesquisa histórica e empenho moral-político que é nova e faz parte da peculiaridade desta obra. No centro de tudo, a reafirmação do universalismo cristão nas condições da América Latina de hoje, de olhos postos no espaço social que o outro universalismo, o do capital e da cidadania, parece incapaz de preencher."


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